O Daniel Oliveira não entende. Eu explico.

Segundo o Daniel Oliveira, Sócrates disse o óbvio: “As dívidas dos Estados são, por definição, eternas. As dívidas gerem-se“. Portanto o Daniel concorda com Sócrates quando este diz que as dívidas não são para ser pagas.

Assim sendo, vou já amanhã ao banco em que o Armando Vara é administrador (ainda é?) pedir um empréstimo de 10 M€ para comprar aquela casa que está à venda na Quinta do Lago (a do Duarte Lima). Afinal, não preciso de pagar.

Neste momento está o Daniel a vociferar que uma coisa não tem que ver com a outra porque “ao contrário das pessoas, os Estados não morrem“. Ora, a minha família também não. Continuarão a pagar os meus filhos, netos, bis-netos…

Serei irresponsável, gastando dinheiro que não tenho, numa coisa que não preciso. E onerarei as gerações futuras da minha família. Farei portanto, exactamente o que Sócrates fez: Comprometer o futuro, onerando os jovens portugueses.

Diz o Daniel que a dívida deve ser mantida e gerida se “os juros praticados são suportáveis” e se “o crescimento económico permite cobrir os custos da dívida“. Eu discordo, mas nem por aqui o Daniel Oliveira consegue ter razão.

Há já 15 anos que, em Portugal, não há crescimento económico que faça frente à dívida. E nos últimos anos os juros praticados são insuportáveis. Daí ser perfeitamente absurdo continuar a cometer o erro de contraír mais dívida.

O Daniel não entende a indignação que se instalou após as declarações do ex-PM. Eu explico: Sócrates diz que a dívida não é para pagar, mas os Portugeses estão a sentir na pele (e no bolso) exactamente o contrário, estão a pagá-la.

De resto, caro Daniel, quero dar-lhe os parabéns por ter conseguido colocar na mesma frase as palavras “Sócrates“, “honestidade intelectual” e “rigor“. Nem os cães de fila socratistas, algum dia tiveram a audácia de o escrever.

O “tuga”, uma espécie que prolifera – Parte V

Hoje, estava no Multibanco, e ao meu lado apareceram duas jovens senhoras, bem vestidas, nos seus late thirties:

– Vais pagar as contas?
– Não, vou pagar uma multa.
– Uma multa? (com ar intrigado e de desdém)
– Sim, de estacionamento.
– Tás a gozar?!
– É pá, não tou pra me chatear.
– Mas o que aconteceu?
– Foi na semana passada, estacionei e não pus moeda.
– Isso é Polícia ou Emel… vais pagar?
– Caguei. São 8€ e não estou mesmo para me chatear.

Perante este diálogo apraz-me dizer apenas que este é um bom exemplo de duas TUGAS. Uma espécie que infelizmente, prolifera neste país de gente pobre de espírito.

À dita senhora apetecia-me perguntar: Não está para se chatear? Chatear com quê, com quem? E só paga porque se está a cagar? Porque são só 8€? Mas a senhora está acima da lei?

À imbecil da amiga apetecia-me dizer: Sim, as multas são para se pagar, todas! E não, não é gozo, é mesmo assim que se deve proceder. Independentemente da autoridade que autuou.

Modas idiotas (V)


Cordas, guitas, fios, cordões, fitas… amarradas por cima das calças, nos tornozelos. Mas que raio de moda é esta?! Isto tem alguma coisa de moda?! Só um idiota pode aderir a uma parvoíce destas. É que não tem ponta por onde se lhe pegue.

Hoje comecei por ver um guna de calças de ganga largas, a cair pelo rabo como é habitual, com uma guita a amarrar as calças nos tornozelos. “Moda da Buraca”, pensei eu. Depois no Chiado vi outras duas meninas, uma delas espanhola.

Pinto da Costa não desceu ao balneário


Não foi ontem, no jogo frente ao Zenit, que o FC Porto falhou a qualificação para os 8avos-de-final da Liga dos Campeões. A qualificação foi comprometida nos 2 jogos com o Apoel, um empate e uma derrota, indesculpáveis.

Mas ontem, tal como nos mais recentes jogos, viu-se um FC Porto com garra, com competência, com vontade, com ambição. Dominou por completo o jogo, criando variadíssimas oportunidades de golo (infelizmente falhadas).

Disse-se que Pinto da Costa terá “descido” ao balneário e intervindo. Especula-se sobre a forma como o presidente terá “dado um murro na mesa” e feito um “ultimato” aos jogadores da equipa. Abstive-me de falar disso até agora.

Fi-lo porque efectivamente não pude ver os jogos mais recentes, e apesar de tudo, através da rádio não dá para ter uma percepção perfeita de como a equipa estava a jogar. Ontem vi o jogo todo, como sempre, com atenção.

Confirmei portanto a minha convicção: Pinto da Costa não “desceu” ao balneário. Ele “desceu”, isso sim, ao gabinete do treinador. Até há pouco tempo o FC Porto não tinha uma ideia de jogo (o chamado fio de jogo), agora tem.

Nos jogos que compuseram a “crise” o FC Porto não tinha uma estratégia bem definida. Não jogava em posse ou em contra-ataque. Não pressionava. Jogava como calhasse. Agora voltou ao que tem sido nas últimas épocas.

Nos últimos tempos cansei-me de dizer: “contem as vezes que a bola passa nos pés de Moutinho, antes e depois de Vítor Pereira”. O facto é que nos últimos jogos voltou a passar, e veja-se a diferença. Moutinho é enorme!

Dirão que os jogadores também não ajudavam. É verdade. Mas imaginem uma enfermeira, contratada por um hospital privado, que passado 1 ano, com novo director, é colocada como assistente ao dentista. É obviamente desmotivador.

Mas se o aspecto técnico-táctico foi ultrapassado, mantêm-se os problemas de liderança/carisma. Vítor Pereira não é Mourinho, nem Villas-Boas. Pode ser suficiente para competições internas, mas nunca nos levará ao topo da Europa.

Francisco Sá Carneiro, um político insígne

Há 31 anos atrás morria o PM de Portugal, Francisco Sá Carneiro, na queda do avião que o levaria a um comício no Porto no âmbito das eleições presidenciais. Infelizmente sou obrigado a acreditar de que não se tratou de um acidente. Foi sim algo premeditado, mas que se dirigia ao Ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa.

Passadas três décadas o processo prescreveu e já nada há a fazer para castigar os hipotéticos culpados. Infelizmente ainda há, neste país, forças ocultas (que têm poder, apesar de não aparentar) que conseguem esconder, tanto os responsáveis que ainda estão vivos, como outros que já morreram (alguns recentemente).

Sá Carneiro foi um político insigne em Portugal. Foi uma referência não só como político mas também como líder e como homem. Era íntegro no verdadeiro sentido da palavra. Tinha um comportamento ética e moralmente correcto, era decente, sério, vertical e honrado.

O fundador e primeiro líder do PSD era um político implacável. Frontal, responsável e com sentido de Estado. Foi eleito deputado á Assembleia Nacional anos antes de 74 e lá lutou, ás claras (ao contrário de outros), pela liberdade e pela igualdade. Não se escondeu. Deu a cara pelos valores e ideais em que acreditava.

Depois do 25 Abril 74 fundou o PPD e contra todas as expectativas teve um sucesso assinalável. As pessoas chegavam à sede e pediam para se inscrever no “partido do Sá Carneiro”. A adesão foi massiva e rápida. O seu trabalho foi reconhecido pelo povo em 79 quando foi eleito Primeiro-Ministro.

Sá Carneiro livrou Portugal de uma hipotética ditadura militaro-comunista e pugnou sempre pelos valores da liberdade, igualdade e solidariedade. Foi amado e odiado, mas nunca ignorado ou desprezado. Foi sempre respeitado.

Não fosse a tragédia de há 31 anos atrás e por certo Portugal seria hoje um país diferente. Não tenho dúvidas de que Sá Carneiro teria feito o mandato de 80 a 84 e também outro de 84 a 88. Portugal seria hoje, com toda a certeza, um país diferente.

O advento do “Social CRM”

No último artigo sobre o tema, escrevi que com a actual “filosofia de negócio centrada no Cliente, é impossível [a uma empresa] não pensar nas redes sociais“. Isto, se as empresas querem atingir os seus propósitos de evolução do produto, aumento da qualidade de serviço, fidelização do cliente, e crescimento das vendas.

Há uns tempos atrás, quando o cliente precisava de contactar a empresa para obter suporte ia ao website, e se a resposta não fosse fácil de encontrar, telefonava para o contact center. Hoje, é mais frequente essa pessoa procurar um fórum (tipicamente em redes sociais) onde outros tenham descrito o mesmo problema, e possivelmente a solução.

Existem hoje várias comunidades online relacionadas com os mais diversos temas. Seja em fóruns, blogues ou redes sociais (em grupos, páginas e perfis) grupos de pessoas discutem um mesmo assunto, produto ou serviço. Procuram, por exemplo, formas de potenciar ou resolver problemas do seu equipamento. Há até “especialistas amadores”.

As empresas deverão estar atentas, e se possível envolvidas nestas comunidades. Algumas das mais visionárias têm as suas próprias comunidades, abertas ao cliente, outras associam-se a comunidades independentes, que têm crédito e conteúdo valioso. Estas comunidades são uma boa oportunidade para analisar necessidades e tendências.

O uso das redes sociais pelas empresas, deve ser no entanto cuidada. Em primeiro lugar a postura, a escolha do local, e a forma da abordagem é crucial. Há em Portugal exemplos recentes de “tiros pela culatra” (EDP ou Ensitel). Da mesma forma, a informação é infinita, pelo que é normal que numa pesquisa o cliente encontre informação errada.

As redes sociais podem aumentar dramaticamente o impacto do serviço mal prestado a um cliente, porque permitem que esse cliente insatisfeito manifeste publicamente o seu descontentamento, e consequentemente espalhe impressões negativas sobre a empresa, criando menos confiança, menos fidelização e menos vendas.

Por outro lado, o uso das redes sociais permite às empresas, não só ter um canal privilegiado com o (potencial) cliente como também ter um mapa através do qual se podem guiar pelas preferências e necessidades dos seus (potenciais) clientes criando produtos mais adequados, e prestando melhor serviço de pré e pós-venda.

Existiu recentemente uma grande alteração nas relações entre empresas e clientes. A junção entre as redes sociais e os processos de gestão de relacionamento com clientes (CRM) deu origem ao Social CRM. Esta ferramenta permite criar uma forte união entre processos, pessoas e tecnologia. E traz vantagens a todos.

É hoje evidente que o Social CRM traz às empresas vários benefícios, no que concerne ao desenvolvimento de novos produtos ou serviços, de um melhor serviço ao cliente, uma melhor identificação de oportunidades negócio (cross-selling e up-selling). Tudo isto, pelo conhecimento do perfil, das necessidades e das opiniões do cliente.

Além disso também é evidente que o conhecimento de todos esses factores pode ajudar a agilizar e melhorar os processos de criação, produção, serviço e marketing da empresa. Last but not least, com produtos que se adequem mais a si, e com melhor qualidade de serviço prestada, ganha o cliente.

Artigo em arquivo aqui

Opinião: O fado dos Jogos Olímpicos

Artigo de opinião que escrevi para o Sovolei, e ficará arquivado também aqui:

A selecção portuguesa de voleibol falhou recentemente a sua tentativa de qualificação para os Jogos Olímpicos de Londres 2012. Com ela, gorou-se qualquer tipo de possibilidade de Portugal ter uma modalidade colectiva representada nas Olimpíadas. Mais uma vez, serão apenas atletas individuais a representar o país. Cerca de 70 atletas, na sua maioria praticantes de atletismo.

Em mais de um século (contabilizando os Jogos Olímpicos da era moderna) Portugal teve apenas 4 equipas em modalidades colectivas. Uma equipa de pólo aquático em Estocolmo 1956 e três equipas de futebol em Amesterdão 1928 (5º lugar), Atlanta 1996 (4º lugar), e Atenas 2004 (14º lugar). Todas as outras participações, com mais ou menos brilho, estiveram a cargo de atletas individuais.

Incompreensivelmente o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP) dá agora como desculpa o facto de Portugal estar inserido na Europa, onde as fases de apuramento são extremamente difíceis. Vicente Moura ocupa o lugar desde 1992 (com interrupção entre 93 e 96) e descobriu 20 anos depois que estamos num continente competitivo. Talvez preferisse mudar o país para a Oceania.

Também estranhamente, Vicente Moura diz que o “futebol depende sobretudo da qualidade das novas gerações” porque o apuramento é feito pelos sub-21. E o problema das outras modalidades é qual? É precisamente o mesmo, mas indirectamente! A falta de aposta na formação no seio das modalidades ditas amadoras, é o que impede o desenvolvimento sustentado e a falta de talentos nas formações seniores.

O presidente do COP, diz que Andebol e Basquetebol têm hipóteses nulas para chegar aos Jogos Olímpicos. Diz que o Voleibol ainda não tem qualidade, falhando três fases de qualificação. E Que apenas o Futebol o pode fazer, mas não quer. Assume que a Federação Portuguesa de Futebol nunca considerou os Jogos Olímpicos como sendo prioritários, porque colide com os interesses dos clubes.

Mas o que aqui está em causa é o interesse do país, do desporto, dos atletas? Ou é o interesse de clubes e agentes? O que o Futebol tem feito no que diz respeito aos Jogos Olímpicos é vergonhoso. Um bom exemplo, é o de 2004. Com Moreira, Bruno Alves, Bosingwa, Meira, Meireles, Ronaldo, Hugo Almeida, Danny ou Carlos Martins, ficamos em último num grupo com Costa Rica, Marrocos e Iraque.

O que fez Vicente Moura para lutar contra isto? Para mudar o paradigma do desporto português, que está bêbado de Futebol? Para lutar pelas outras modalidades, ditas amadoras? Para que serve o lugar que ocupa? Apenas para colher os louros quando os atletas individuais (sabe Deus com que esforço, lutando com quem tem condições incomparavelmente melhores no seu país) vencem medalhas?

O presidente do COP já se devia ter demitido. Tal como outros, que estão agarrados aos seus lugares em Comités, Confederações, Federações e outros organismos. O seu trabalho é manifestamente incompetente. Trata apenas da gestão corrente, sem qualquer tipo de estratégia que permita desenvolver o desporto português, tendo como consequência o desenvolvimento pessoal e social dos atletas portugueses.

Para além de uma estratégia e uma política bem definidas, sabemos como faltam apoios a todas as modalidades. Nas individuais passa despercebido, porque a qualificação é feita por mínimos, e não por vitórias. Mas nas colectivas é notório, porque é preciso vencer para se qualificar. E por se tratar de um conjunto de atletas, é também necessário haver condições que agreguem vontades.

No que concerne ao Voleibol, e mesmo com as condições que temos, estamos muito perto. Era necessário que algo de fundo mudasse para que pudéssemos atingir o objectivo olímpico. Desde logo a mudança de quem lidera. O actual seleccionador diz que é preciso começar a trabalhar já na “renovação do grupo, começando a introduzir alguns jovens na competição, porque há jogadores em final de ciclo”.

Pergunto o que faz ele, junto da Federação Portuguesa de Voleibol (FPV) para alterar o status quo? Para além de não ajudar no apoio aos clubes (eles sim, os únicos que têm possibilidade de “fabricar” novos talentos), ainda está imbuído da cultura da FPV, disparando sobre os próprios atletas. “Não podemos estar dependentes de quem vem ou não à Selecção”, aludiu recentemente à ausência de Hugo Gaspar.

O que queria Juan Diaz? Que Hugo Gaspar comprometesse o seu futuro como médico, para se juntar a um grupo que estava, logo à partida, derrotado pelos seus responsáveis, que nele não confiam? Infelizmente, e por culpa de quem gere a modalidade há décadas, Hugo Gaspar não pode assegurar o seu futuro como atleta de Voleibol, e por isso lutou (com esforço e privações) por uma garantia de futuro.

Juan Diaz diz que é preciso “estruturar um programa a longo prazo e cumprir as metas estipuladas”. Pergunto, há quantos chegou a Portugal? Há cerca de 10 anos! E só se lembrou agora que é preciso uma estratégia de longo prazo? Porque não a propôs ou implementou desde logo? Contribuiu activamente para que tudo ficasse na mesma, aproveitando pelo meio o talento de uma geração.

Se Portugal quer estar representado por modalidades colectivas nos Jogos Olímpicos tem de em 1º lugar limpar a estrutura dirigente nas federações desportivas; Em 2º lugar reformar as suas políticas e estratégias desportivas; Em 3º lugar dar aos clubes a liberdade para, em conjunto, decidir a maneira como formam os atletas e gerem o seu dia-a-dia; Em 4º lugar dar às associações o poder para intervir na modalidade.

Opinião: A reforma do Poder Local

Artigo de opinião que escrevi para a edição de Dezembro 2011 do jornal “Notícias de Santo Tirso”.

É verdade que o Poder Local foi o motor do desenvolvimento na maioria do território, excepção feita às grandes áreas metropolitanas, onde o impulsionador foi o Poder Central. Mas nos últimos anos tudo mudou. Houve uma alteração das circunstâncias sociais, económicas, financeiras, políticas e até mesmo ambientais. Exigia-se que o Poder Local se adaptasse aos novos tempos, que fosse mais eficaz e eficiente.

Infelizmente os interesses partidários falaram sempre mais alto, e nenhum Governo foi capaz de mexer na “vaca sagrada” do Poder Local, fonte de tantos votos. Ele foi-se degradando e passou a estar nas mãos de políticos profissionais. Em alguns casos, gente sem o mínimo exigível para ocupar cargos públicos. O que se vê pelos inúmeros processos de corrupção que envolvem autarcas.

Foi preciso estarmos quase na bancarrota e dependentes da ajuda externa para que nos fosse imposta uma verdadeira Reforma da Administração Local, pelo Memorando de Entendimento com FMI/BCE/UE. Ela terá de acontecer até Junho de 2012, e daí o Governo PSD/CDS ter publicado recentemente um documento que deverá servir de base para a discussão.

Naturalmente logo após a apresentação das linhas orientadoras e sugestões do Governo, surgiu a indignação de vários autarcas. Não porque o projecto de Reforma fosse desadequado ou injusto, mas porque no essencial mexe com lugares. Os seus e os das suas pandilhas. Prevê-se a redução de vereadores, directores municipais, deputados municipais, etc. Daí a preocupação da maioria dos que se insurgem contra a Reforma.

Usando e abusando da habitual demagogia e populismo barato, vêm bradar com o “património do municipalismo” e com o “respeito pelos valores e culturas de cada concelho ou freguesia”. Mas que património e que cultura? Nos dias de hoje, é perfeitamente normal as pessoas viverem em concelhos de onde não são naturais. Pelos estudos, pelo trabalho, pelo casamento. São poucos os que nascem e vivem na sua cidade para sempre.

Isso não destrói nenhuma cultura ou património. Lisboa não deixou de ter Pastéis de Belém, Marchas Populares e Bairros apesar de a maioria dos seus residentes serem provenientes de outras zonas do país. Há até muita gente que vem “de fora” e ajuda (muitas vezes mais do que os da terra) a preservar tradições e património. Conheço, no meu concelho (Santo Tirso), alguns exemplos flagrantes que comprovam isso mesmo.

Além disso Lisboa, a capital, deu o exemplo no que concerne a uma reforma administrativa do território. E tudo parece ter corrido bem, apesar das naturais divergências. Com um longo período de discussão, os autarcas chegaram a acordo. De 53 freguesias, Lisboa irá passar para 27. Está dado o aval da Câmara e da Assembleia Municipal. Falta agora o pró-forma da Assembleia da República. Não consta que se percam identidades e tradições.

O que se quer com esta Reforma é, acima de tudo descentralizar políticas, dando mais competências aos Municípios e Freguesias. Estas entidades deverão ser verdadeiros instrumentos de desenvolvimento económico e social das populações, e de coesão do território. Mas a descentralização e reforço de certas competências, só podem ser feitos de forma eficaz e eficiente se Municípios e Freguesias tiverem dimensão. Daí a necessidade de agregar.

É imprescindível também rever o regime de financiamento do Poder Local. Há uma extrema necessidade de acabar com a elevada dependência das receitas de construção e imobiliário, que fomentam a corrupção. Era preferível por exemplo passar a Derrama e o IMI para a Administração Central, e aumentar a parte do IRS que cabe aos Municípios ou mesmo aumentar as transferências do OE para as Autarquias.

É também indispensável acabar com os empréstimos que são excepção aos limites de endividamento. Muitos leigos não sabem, mas há obras cujos empréstimos não contam para os limites de endividamento. Dívidas para obras como os estádios do Euro 2004 (que tiveram uma lei especial) ou para obras co-financiadas com Fundos Comunitários, não implicam qualquer agravamento à capacidade de endividamento municipal.

É também importante alterar as regras de eleição e constituição dos órgãos autárquicos. Não faz sentido haver um executivo com vereadores de vários partidos, em que uns têm pelouros e os outros apenas criam entropia, fazem figura de corpo presente, e recebem umas senhas. E o argumento da fiscalização não colhe, porque ela pode perfeitamente ser desempenhada pela Assembleia Municipal.

Aliás, o Governo da República é homogéneo, os Governos Regionais são homogéneos, os Executivos das Juntas de Freguesia são homogéneos. Cabe na cabeça de alguém que apenas os Executivos das Câmaras Municipais sejam diferentes? Da mesma maneira, fará todo o sentido que o Presidente da Câmara possa (tal como o Primeiro-Ministro) remodelar o executivo a meio do mandato, se este não estiver a corresponder.

Outras questões deverão também ser levantadas no âmbito desta discussão, mas temo que uma delas não seja a da limitação de mandatos. Isto porque ainda há pouco tempo foi motivo de “vitória” junto da população, pelo facto de ter sido aprovada a lei de limitação de 3 mandatos. Mas que tal acrescentar também, que findos esses 3 mandatos, não se podem candidatar a outros 3 num concelho diferente? Prevenia chicos-espertos.

Mário Soares, por qué no te callas – Parte III

Recordo algo que escrevi sobre Mário Soares em 2009:

Respeito muito Mário Soares pelo papel que desempenhou na construção da democracia portuguesa. De qualquer forma, ao contrário de outros, não lhe coloco o epíteto de “Pai da democracia”. Foi uma das figuras importantes – a par de Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Álvaro Cunhal entre outros – mas está longe de ser o principal ou único responsável.

Ele, melhor do que muitos, deveria saber que em política (como na vida) tudo tem o seu tempo. Pelo percurso que teve já devia ter aprendido que os grandes homens da história souberam saír na altura certa. Saber o timming para se retirar e dar lugar aos mais novos é algo essencial para se “saír pela porta grande“.

Além disso o corpo humano vai-se detereorando com a idade, e mais grave do que as debilidades físicas que começam a aparecer, é a perda de capacidades cerebrais. Está provado cientificamente que com o avançar dos anos o cérebro vai atrufiando (se assim se pode dizer) e vamos perdendo discernimento.

Mário Soares terminou em 1996 o seu mandato de PR e podia ter-se retirado. Mas o bichinho da política, o amor pelo partido, e a consciência de que ainda era capaz, fê-lo rumar a Bruxelas em 2000. Penso que fez bem, porque a sua experiência e conhecimento podiam contribuir para a construção europeia e para a defesa de Portugal na UE.

Em 2005 com 81 anos tomou a decisão correcta e sensata de se retirar, anunciando que abandonava definitivamente a política. Tinha sido um percurso brilhante ocupando o cargo de PM, PR e Deputado Europeu. Retirava-se um grande homem que contribuiu imenso para a construção do país.

Mas infelizmente, para ele e para muitos de nós, os últimos 6 anos foram catastróficos. A candidatura presidencial de 2006, os argumentos de cabo de esquadra para defender Sócrates, as criticas à oposição de Passos Coelho, e demais demagogia e banalidades que tem proferido.

A última prova de que está fora de prazo, foi o manifesto que Mário Soares lançou há dias (juntamente com mais uns quantos pataratas). Tal como diz, e muito bem, o Duarte Marques, Soares e demais comparsas, chegam tarde, muito tarde.

Para além do mais, pede uma “mudança de paradigma” (qual Fátima Campos Ferreira), mas não apresenta alternativas, e pelo que se consegue perceber, quer mesmo é que tudo continue como está. Ou melhor, que recue para o que foi há 30 anos atrás.

O que Soares pretende, não é um melhor futuro para Portugal, mas que tudo volte a ser como dantes. Como disse Pessoa: “A recordação é uma traição à Natureza. Porque a Natureza de ontem não é Natureza. O que foi não é nada, e lembrar é não ver“.

É pena que Mário Soares não se contenha, porque assim ele está a perder o respeito que os portugueses (mesmo os que não são do PS, como eu) tinham por ele. E além disso não está a contribuir em nada para que Portugal e a Europa consigam sair desta crise profunda.

#24Nov A razão de CGTP, UGT, PCP, Bloco…

Declaração de interesses: Apesar de reconhecer o direito à Greve, não aderi a esta de 24 Nov 2011. Aliás, que me lembre, só aderi a uma Greve de Estudantes em meados dos anos 90, quando frequentava o Secundário. Inconsciente, fui na onda, sem questionar.

A Greve de hoje, segundo os seus promotores, é contra o assalto aos trabalhadores, contra o roubo à classe baixa e aos pensionistas, contra a perda de direitos dos portugueses, contra o corte nos salários e nas pensões, contra a precariedade no trabalho.

Nenhuma pessoa com bom senso pode negar que as medidas aplicadas pelo Governo são violentíssimas. Mas é preciso ter consciência que elas resultam da situação financeira em que o país mergulhou, e que nenhum Governo as aplica com gosto e prazer.

O problema dos promotores da Greve (na sua maioria de esquerda) – é que, apesar de saberem as dificuldades do país (défice e dívida), acham que o Governo “de direita” está a aproveitar para, por pura ideologia, retirar o que é do povo.

Acham que “a direita” era capaz de fazer isto, porque a ideologia em que eles próprios acreditam também o fez. Se eles o fizeram, acham que os outros também o fazem. Como se fossemos todos iguais. Não somos. O melhor exemplo: A antiga União Soviética.

Os Czars nunca reconheceram direitos de propriedade porque consideravam todo o reino como propriedade sua. Sem propriedade privada, e sobretudo sem a propriedade da terra, não podia haver outra lei que não fossem os decretos autocráticos do Czar.

A revolução industrial Russa acelerou a chegada dos bolchevistas, que imposeram a ditadura mais opressiva que o mundo jamais conheceu. Enquanto o Czar exigia ser tratado como representante de Deus, Lenine e o Partido Comunista usurparam o próprio lugar de Deus.

O comunismo iniciou uma guerra contra a religião, perseguiu os lavradores e todos os hábitos e laços da vida privada. A regra passou a ser: o Estado tudo deve tomar, possuir e absorver. Este sistema foi imposto ao povo russo durante décadas.

Em meados dos anos 20, Estaline (líder do Partido Comunista que sucedeu a Lenine) chegou ao poder. Nessa altura pouco mudou. O sistema soviético ficou mais estável, mas tornou-se mais burocrático, estratificado e corrupto. O povo continuou na mesma miséria.

Durante 60 anos o Partido Comunista governou a Rússia desta forma. À força, de livre vontade, por pura ideologia, retirou o pouco que era do povo e apoderou-se de tudo. Instituiu uma ditadura em que era dono e senhor, negando qualquer tipo de direito às pessoas.