Linhas Vermelhas que se transformam em Via Verde

Em outubro de 2022, após 23 anos de militância, tomei uma decisão difícil: pedi a minha desfiliação do PSD. Fi-lo apenas três meses depois de Luís Montenegro assumir a presidência do partido. E 2 anos antes de se tornar Primeiro-Ministro.

Na altura, escrevi que o PSD tinha perdido a capacidade e a vontade de romper com o empobrecimento de décadas, distanciando-se irremediavelmente da matriz de Francisco Sá Carneiro, e da obra de Aníbal Cavaco Silva.

Saí porque a integridade e o projeto de país devem valer sempre mais do que um cartão de militante.

Hoje, ao observar a governação de Montenegro, o sentimento é um misto amargo de desilusão e alívio.

Desilusão por ver Portugal refém de uma “navegação à vista”, sem reformas estruturais e envolto em suspeitas éticas que mancham a instituição do Primeiro-Ministro (na continuidade daquilo que já se tinha passado com António Costa).

Alívio, porém, por confirmar que o meu julgamento estava certo. O tempo é o senhor da razão e, infelizmente, vaticinei (para mim próprio) com precisão a falta de visão e o vazio de liderança que agora todos testemunhamos.

Como disse outrora Sá Carneiro, “Portugal precisa de uma política de verdade e de transparência, e não de uma política de sobrevivência e de oportunismo“.

É precisamente nesta dicotomia que encontramos a falha desta governação: a integridade cedeu o passo à sobrevivência política e as convicções tornaram-se elásticas conforme a conveniência do momento (mais uma vez, na continuidade de António Costa).

O mais irónico – e perigoso – tem sido a gestão das “linhas vermelhas”. O que começou como uma barreira intransponível em relação ao Chega, parece ter passado por um processo de desgaste acelerado.

No início, as linhas eram vermelhas; hoje, com o governo a precisar de oxigénio parlamentar, as linhas já estão num tom amarelo desbotado.

Temo que, muito em breve, o país acorde com uma Via Verde instalada entre o PSD e a extrema-direita: um sistema onde se passa sem parar, sem princípios e sem portagens morais.

O problema é que, no final deste percurso, quem paga a fatura do oportunismo somos todos nós.

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